Deveria fazer? A vida andava difícil, muitas coisas estavam dando errado uma depois da outra. Primeiro descobriu que não podia ter filhos – o que, convenhamos, não foi um baque tão grande. Logo depois, a mulher o deixou, provavelmente querendo alguém que lhe pudesse dar uma criança. Engraçado como ela sequer cogitou a adoção... Provavelmente já queria pular fora faz tempo, só precisava de uma boa desculpa.
Depois disso, saiu para se embebedar e enfiou o carro num muro, perda total. Claro, o infeliz ainda sobreviveu sem um arranhão sequer. O ferimento fatal, claro, não tardou. Na segunda-feira seguinte seu patrão o mandou embora, disse que seu estado estava deixando todos os empregados cabisbaixos.
E agora, estava lá. Um quarto escuro, frio invernal vindo pelas frestas da janela, o som de gatos férteis propagando sua espécie no telhado. E a arma.
Era antiga, fora de seu pai. Carregada e pronta para atirar. Apenas um apertão e tudo mudaria. Já não tinha mais nada a perder, ninguém para decepcionar, então porque não?
Mas a coragem não vinha. Talvez o prognóstico de uma morte dessas não lhe fosse muito agradável. Ou talvez simplesmente tivesse medo de mais para atirar na cabeça.
Então ouviu o som abafado de “socorro” que o gordo patrão amarrado na cadeira começava a fazer por debaixo da fronha de travesseiro que tinha na boca. Mau sinal, melhor acabar logo com isso.
Atirou.